sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A VIDA E A MORTE

A calma e a descontracção do duche pós treino são pautadas pelo chilrear das crianças no pátio da escola paredes meias com o “balneário”.
São crianças em alegres correrias e brincadeiras pelo pátio da escola, antes de mais um dia aulas, num tempo que é de inocência e em que tudo de bom se pode desejar, e sonhar, para quem ainda tem muita vida e um grande horizonte pela frente.
Os duches das corridas de inverno são assim. Muitas vezes embalados pelas vozes das crianças no pátio da escola. O frio e a ausência de luz solar atrasam as corridas para horas mais tardias enquanto no verão se procura a madrugada para fugir ao calor intenso.
Mas enquanto as crianças chilreiam alegremente o som do sino da igreja vem juntar-se a elas no toque, dolorosamente triste e chorado, a finados.
Assim por alguns momentos a vida e a morte misturam-se em sons tão antagónicos: a vida das crianças que brincam no pátio da escola num tempo em que não se pensa em futuro, num tempo de alegria e descontracção (pelo menos para estas crianças deste pais da Europa, porque noutras latitudes ou noutros tempo a infância não é ou foi assim. E mesmo em Portugal começa a haver muitas crianças a irem para a escola com fome pese embora, por enquanto, ainda se esteja longe do flagelo do trabalho infantil de outros negros tempos em que as crianças nunca foram meninos) com o dobrar a finados do sino da torre da igreja que anuncia a extinção da vida para alguém.
A vida e morte misturada em sons a fazer-nos lembrar a precariedade da vida, que estamos cá numa curta passagem, que a vida mais não é que um contrato a prazo que bem poderia ter sido criado pelas leis do mais tenebroso dos neoliberalismos, pois é de uma precariedade absoluta sem quaisquer regras.
Tudo isto faz-nos lembrar que desta vida apenas se leva o respeito e a memória dos que cá ficam se passamos por ela com honradez.
Faz-nos lembrar que a vida deve ser uma luta, permanente, pela nossa felicidade mas também pela felicidade dos outros. Que uma vida plena não se compadece com egoísmos de quem passa por ela apenas olhando para o seu umbigo.
São aqueles que mais se deram aos outros em vida, que mais lutaram em prol do colectivo, que mais contribuíram para um mundo novo mais justo e fraterno que terão o seu nome preservado para memória futura e que a sua morte física não corresponderá aos seu esquecimento.

A vida é assim, precária, demasiadamente precária, por isso vivamos cada dia como se fosse o primeiro e o último mas sem esquecer os outros, sem esquecer o colectivo, sempre com os olhos postos na humanidade isto se queremos levar desta vida o respeito dos outros e ficarmos na memória de alguém. Que no fim de tudo nada mais se pode ganhar.

8 comentários:

  1. Tudo isso nos faz pensar que afinal não vivemos aquilo que deveríamos viver, que devíamos "beber" cada minuto que vivemos e que respiramos, porque ninguém sabe o que pode acontecer no minuto a seguir. Viver intensamente é isso que devemos fazer! E para viver apenas é preciso ter ao lado quem nos importa e o resto é conversa. Não se tem dinheiro para ir ao cinema, não faz mal vemos um filme em casa, acende-se a lareira, faz-se umas pipocas, pomos uma manta no chão e assistimos a um filme. Não podemos ir jantar fora, não faz mal, pomos a mesa na rua e aproveitamos o que de melhor temos em casa :)
    É preciso saber aproveitar a vida!!! :D Vivam a vida :D

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  2. Concordo plenamente Marta mas todos devem poder viver com um mínimo de dignidade e conforto.
    Não defendendo uma sociedade consumista também não posso defender aquela sociedade de pobrezinhos, mas honrados, felizes e limpinhos (!) até porque isso esconde todo um mar de desigualdades e injustiças.
    É perfeitamente possível uma sociedade em que todos possam viver com dignidade e algum conforto, sem necessidade de grandes consumismos nem aquelas diferenças enormes entre ricos e pobres.
    Bem mas isto são contas de outro rosário! Bons treinos.
    Beijinho,

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  3. Jorge, sempre digo, que o que nos torna imortais é sermos mortais, se aproveitarmos a fragilidade da vida para aproveitar cada momento e valorizar cada estante com quem importa e sendo altruísta e fortalecendo o próximo, teremos nossos nomes lembrados e deixaremos boas lembranças, por que no final tudo vira lembrança...de um tempo bom, assim espero.
    Mas ainda vamos longe meu amigo tanto tu como eu, ainda teremos muitos km para compartilhar e histórias para contar.
    Beijinhos
    Bons KM
    JU

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  4. Não poderia estar mais de acordo Ju!
    Beijinhos para esse lado do mar.

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  5. Muito bem escrito e descrito!

    Com o galgar dos anos, apercebemos cada vez mais a tal precariedade e a necessidade de corrermos atrás do que nos alegra. Mas esse desejo nem sempre é compreendido ou correspondido.

    Quanto à tua frase "São aqueles que mais se deram aos outros em vida, que mais lutaram em prol do colectivo, que mais contribuíram para um mundo novo mais justo e fraterno que terão o seu nome preservado para memória futura e que a sua morte física não correspondera aos seu esquecimento" pois lamento mas nem sempre. Tanto verdadeiro herói da vida, pelo que fizeram pelos outros, que desaparecem incógnitos. É pena mas é real.

    Um grande abraço

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  6. Obrigado "rapaz" e um bom treino longo para amanhã ou como diria a minha amiga Ju, do Brasil, um bom "longão"!
    Aquele abraço.

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  7. Caro Jorge, belo texto (mais uma vez), muito verdadeiro. Infelizmente, cada vez menos se vive o "nós" e cada vez mais o "eu". Apenas acrescento - faria sentido ter um mundo só para mim, onde não pudesse compartilhar uma história, um sorriso, uma gargalhada, uma lágrima, uma tristeza ou uma corrida? Não me parece....
    Aquele abraço

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    1. Muito bem dito amigo Carlos Cardoso.
      Aquele abraço.

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