domingo, 6 de julho de 2014

MADRUGADA A CORRER NUM MAR DE SENTIMENTOS!

Quando vi o anúncio da prova Madrugada a Correr fez-se um “clique” no cérebro!
Confesso que correr àquela hora e ver o sol nascer não é nenhuma novidade para mim pois socorro-me de horas bem madrugadoras para fugir ao calor aqui em treinos pela Lezíria Ribatejana! O percurso entre o Estádio Nacional e a Rotunda de Algés também não é algo que se me afigure atractivo e a distância de 7 km então é uma “desgraça” para quem não gosta de provas de 10 km e só começa a sentir que vale a pena fazer uma prova a partir dos 15 km!
Mas o tal “clique” que tive foi imaginar-me a fazer a prova e depois seguir para um treino que acabaria na casa de um tio meu perto da Avenida Infante Santo em Lisboa. Com alguns acrescentos daria algo a rondar os 21 km e seria um treino de sentimentos para mim!
Vivi 30 anos na Avenida Infante Santo, treinei muito no Estádio Nacional e toda a zona das docas entre o Cais Sodré e o Estadio Nacional foram a minha “casa” de treinos! Construi grande parte das minhas modestas 4 maratonas e a minha ultra maratona nessas zonas na já longínqua década de 80 do século passado!
Mas muito mais que isso alguns familiares meus, já falecidos, viveram, ou trabalharam, ao longo do desse percurso nomeadamente entre a Cruz Quebrada e Algés.
Pode-se dizer que cada metro desse percurso me traz algumas memórias especiais
Conjugando a boa vontade do João Lima que desde a primeira hora se ofereceu para me ir buscar à Infante Santo com o alojamento em casa do meu tio Egas Branco lancei-me na aventura da Madrugada dos Sentimentos.
Depois de “não pregar olho” a partir das 3:30 da manhã e me ter levantado às 4 encontrei-me como o João Lima ainda antes do que estava combinado que seria as 5:05 da matina!
A prova em si o que teve mais de especial foi a companhia do João que mesmo com a prova que fizera na véspera e os problemas de saúde que o atormentam ainda deu para meter um andamento algo vivo para um “coxo” como eu e que a seguir a terminar a prova ainda lhe faltavam correr mais dois terços!
De salientar que logo no percurso da prova assinalei o primeiro ponto sentimental ao passar à porta do prédio onde viveu a minha Tia Branca na Avenida Ivens (mais conhecida pela Marginal) em pleno Dafundo.
Confesso que acabar a prova, entregar o chip e depois arrancar em solitário para mais 14,160 km de corrida não foi fácil!
Avenida Pierre de Coubertin, lá vou a descer, descontraidamente, em direcção à Cruz Quebrada aplaudindo e incentivando quem vem a terminar a sua prova.

Quantas vezes desci aquela Avenida para os meus treinos longos em que “voava” para o Cais de Sodré ou a subia em “alta velocidade” no regresso desses mesmos treinos!
Foi também por essa Avenida que parti e voltei (na companhia do Egas) para uma ligação, histórica, de um treino entre o Estádio Nacional e o Estádio Universitário integrado na preparação para as 12 Horas de Vila Real de Santo António em 1987!
Cruz Quebrada: aqui desço para o Paulo Duque e há que fazer um pequeno desvio passando pelo túnel e pela ponte sobre o Jamor para me dirigir ao Largo da Estação.
Chove e a pequena descida no passeio escorrega como tudo!
Largo da Estação, a antiga Fabrica Portuguesa de Fermentos Holandeses agora é um edifício em ruínas, emparedado, que faz doer a alma a quem é neto de um homem que ali trabalhou 40 anos da sua vida dando o melhor de si! Onde também trabalhou uma tia e um tio meu!
Na minha família aquela fábrica foi sempre os Fermentos.
Olho para o edifício e julgo que ainda consigo identificar a janela do gabinete do meu avô Eugénio Nunes Branco! Passa-me toda uma vida pela frente, emociono-me, comovo-me! Mas está feita a primeira homenagem daquele treino tão especial! O primeiro lugar de sentimento!
Volto para a Policarpo Anjos e passo à porta de onde viveu o cunhado do meu tio, Luís Botas (falecido há relativamente pouco tempo) e onde ainda mora a cunhada, a Lourdes. Mais um mar de emoções, mais uma casa que me foi tão familiar e onde passava tantas vezes depois dos treinos no Estádio Nacional.
Atinjo a Paulo Duque e aqui os sentimentos são muitos intensos: num gaveto virado para a marginal viveram os meus tios Adelaide (tia avó) e João Barros e em frente desse prédio a irmã desse meu tio, a Ema.
Um mar imenso de recordações, um oceano de vida, tanta, tanta coisa naquela pequena rua. Vou mesmo até à esquina à porta do prédio e volto para trás a fim de seguir para Algés pela antiga linha dos eléctricos.
Em Algés passo para o lado de lá da linha pelo túnel da estação e entro num percurso que tem tantas histórias e recordações que seria fastidioso falar de todas aqui!
Chove, está vento (felizmente de costas) mas aquela zona é sempre bela!
As pernas ainda vão relativamente leves mas estranho o piso de paralelepípedos do qual já nem me lembrava!
Atinjo a Torre de Belém e como o treino é mesmo de turismo e sentimento corro mesmo no pequeno pontão que acaba no Tejo. Olho aquele Tejo imenso que me corre nas veias e me segue desde criança!
Volto para trás e contorno o relvado do Jardim da Torre de Belém. Centenas e centenas de quilómetros percorridos naquele jardim que eu e o meu tio conhecíamos de olhos fechados o que nos permitia treinar mesmo de noite sem frontal (frontal o que era isso? Nem se usava na altura!).
E segue o treino, as docas estão tão diferentes das “minhas” docas”.
Padrão dos Descobrimentos, dou mesmo uma volta à monumental Rosa do Ventos no chão de pedra, tão bela! Como eu gostava de passar ali em treino!
As pernas já pesam alguma coisa, chove, faz vento, e as docas parecem-se algo com as docas do meu tempo pois só se vêem pescadores!
Pensava que iria ter um dia de sol, aquilo pejado de gente: caminheiros, ciclistas, corredores, simples passeantes mas nada, só pescadores.
Jardim da Cordoaria (como a gente lhe chamava), aqui o meu tio tropeçou num espigão que segurava um banco de jardim ao chão, roubado na véspera, e deu a maior queda da sua carreira de corredor de fundo com a fissura de uma costela, que lhe custou uma paragem de mais de um mês!
Começo a “fazer mira” à Ponte 25 de Abril que tanto passei por baixo, em treino e algumas vezes por cima, em prova!
Passo a ponte e lembro-me de quando aqui fiz um treino em que o vento era de tal ordem que quase nos queria atirar ao Tejo e onde o barulho da chuva tocada a vento contra os frágeis impermeáveis nos impedia de ter uma conversa normal. Só nos ouvíamos aos gritos e muito mal.
Gare Marítima de Alcântara, da minha Alcântara proletária de operários da CUF, estivadores e varinas! Da minha Alcântara, minha pátria, minha freguesia, sou de muitos lados mas Alcântara é a minha pátria mãe!
A recordação mais antiga, do fundo do baú das minhas memórias, que envolve esta Gare reporta-se à chegada do meu ex padrasto vindo da Guerra Colonial, a multidão que aguardava o desembarque, os acenos, os lenços, os gritos os choros, o meu padrasto que me pega ao colo e o menino que já nem o reconhecia na sua farda de oficial e no primeiro momento tem um certo “receio” daquele “polícia” que lhe pega ao colo!       
Pesam as penas mas a Infante Santo está perto!
Finalmente chego ao viaduto da Infante Santo. Quando aqui vivi ele ainda não existia e para passar para o lado das docas ou se ia à passagem de nível do Jardim da Rocha do Conde de Óbidos ou ao túnel da estação de Alcântara – Mar.
19 km e picos, chuva, uma escada para subir e descer não é algo que me agrade lá muito mas tem que ser!
Infante Santo e toca a subir! Não é fácil! A “coisa” sobe proporcionalmente à falta de forma!
Estou a passar ao número 48, aqui vivi praticamente 30 anos da minha vida, deste tenra idade.
Cansado, ensopado, dorido muscularmente, olho lá bem para o alto, para o 10º andar e passa-me toda uma vida pela frente em flash rápido! Emoção, emoção, emoção. 
E continuo a subir, penosamente, aquela Avenida onde cheguei a fazer séries abaixo dos 5 minutos ao km para o Manteigas-Penhas Douradas! Já não existe mais o Gasómetro, agora são prédios modernos e num desses a loja de um amigo meu.
Cruzamento da Sant'Ana à Lapa e agora subo a pela Sant'Ana à Lapa? NÂO!
A Infante Santo é para se fazer toda! Toma lá mais uma subida para estares calado, toma lá com a Domingos Sequeira!
Campo de Ourique! Subi um bocado desde lá de baixo do Tejo! Agora é descer um pouco e estou no “centro de estágio”.
Ensopado, estropiado e feliz chego a casa dos meus tios! Sou logo brindado com foto à saída do elevador! Até tive medo de ir de elevador de tão molhado que estava, mas escadas depois destes 21,300 km...?!
A minha tia horrorizada dá guia de marcha acelerada para o banho! Ai que apanhas uma pneumonia! Nem tive tempo de respirar! Mal ela sabe que o marido apanhou “toneladas” de molhas iguais ou maiores só que tomava banho em balneários!...
Esta corrida/treino é para o meu “irmão” João Lima e em memória de Gertrudes Maria Valente e Branco e Eugénio Nunes Branco, Laia e João Barros, Branca Bélgica, Ema e Luís Botas com muita saudade mas nenhum esquecimento.
Nota: tirando as duas primeiras fotos que ilustram este texto todas as outras fotos são “fotografias de saudade”.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

CORRIDA DOS GAMBUZINOS

Numa época em que cada vez se recorre mais ao pedantismo piroso de “baptizar” provas portuguesas com nomes em inglês esta prova chamou-nos a atenção pela extrema originalidade do nome!
Sim é possível ter provas com o nome em português que do ponto de vista publicitário atraem logo os potenciais clientes ou seja os atletas. É tudo uma questão de originalidade e de ter algumas noções de publicidade!

domingo, 29 de junho de 2014

CORRIDA DAS FOGUEIRAS - FOTOS

FOTOS: MAFALDA LIMA
GENTILMENTE CEDIDAS POR: JOÃO LIMA

sexta-feira, 27 de junho de 2014

domingo, 22 de junho de 2014

CRIOTERAPIA

Depois de uma corridinha um pouco mais longa vamos lá dar manutenção e (tentar) recuperar as “peças”! J

sábado, 21 de junho de 2014

VERÃO! (no calendário...)

Começou o Verão!
Cuidado com a chuva, perdão quero dizer com o calor e a exposição aos raios solares!
Tenham especial atenção com a hidratação e procurem, tanto quando possível, correr nas horas de menor calor. Usem roupas claras e protector solar!
Bons treinos!
*
Nota: a foto que ilustra este texto não é do verão mas sim da primavera! Quando a mesma foi tirada ainda faltava, aproximadamente, meia hora para começar o verão, por isso a razão de tanta chuva! J


sexta-feira, 13 de junho de 2014

OMD – 100 MILHAS – 160KM – 2ª Geral Feminina 6/06/2014 – Serra da Estrela

Por Carla André

Uma estrela à distância de 100 milhas que consegui apanhar! 
Para querer há que sonhar e para conseguir há que tentar! Pois bem, foi isso que aconteceu, sonhei, tentei e consegui, já tenho nas pernas as 100 milhas, e que 100 milhas! OMD! 
Recuperado o sono de duas noites em branco, já posso escrever umas linhas sobre esta minha aventura que faz jus ao nome ‘aventura’, e ao nome real, ‘Oh Meu Deus’! 
Quem me conhece sabe que o meu fascínio é a distância, gosto de desafios com muitos dígitos. Depois de ter percorrido 146km nos Caminhos do Tejo em 2013, o número que seguia só poderia ser o 160 ou seja, as 100 milhas. 
Quem me conhece sabe também que sou teimosa e que quando determino um objectivo não é à primeira que desisto. Em 2013 tentei as 100 milhas na ‘ Ultima Frontera’ mas não consegui, ficando nos 119km, fruto de falta de preparação e erros, erros que aprendi e me ajudaram a construir o caminho que tracei este fim de semana. 
A lista de provas é grande, mas em Portugal só há uma em 2014, a primeira, única, e a mais difícil de todas, o OMD, que percorre 160km pela Serra da Estrela, uma serra muito baixinha:) 
6 feira chegou o grande dia de entrar naquela temível meta! O temporal, chuva, ventos, alertas, ajudaram a que os nervos triplicassem e o acreditar que não iria fechar a página das 100 milhas nesta prova. Mais uma vez parti com uma sensação que poderia não terminar, mas para isso estaria preparada pois já tinha o plano B para as 100 milhas. 
O ar apreensivo do Paulo a contar que eventualmente podiam não deixar subir a torre por uma questão de segurança deixou-me com um sorriso triste, o nervoso apoderou-se… mas S Pedro até foi simpático e a chuva parou precisamente na altura da partida. Dia 6, 16h, ai vamos nós para a grande aventura! A falta de chuva acabou passados uns poucos kms e lá veio para nos atormentar durante cerca de 50 kms… O percurso é maravilhoso, vivia um misto de felicidade, medo, coragem, mas acima de tudo a certeza que Deus me ia proteger sempre! Os primeiros kms foram maravilhosos com o apoio do Hugo e dos meus amigos que foram tentando cruzar-se a cada ponto possível para gritos de forças, indescritível! Aos 37km chegamos a Loriga onde fomos acolhidos com uma bela sopinha e alguns petiscos para dar força para o que ai vinha! O carinho das pessoas era imenso, confesso que nunca senti tanto apoio e carinho como das pessoas da terra, que se aliaram a esta organização e que tornaram tudo tão especial como uma festa, éramos recebidos a cada ponto como uns autênticos reis e rainhas, não nos faltava nada! 
Pois que tudo isto foi muito importante, seguia-se uma parte bem durinha, íamos dar uma volta em que passávamos por mais duas aldeias e voltaríamos a Loriga. Esta volta seria feita maioritariamente por levadas de água. Fomos logos avisados que deveríamos ir pelas levadas e não na berma que seria muito perigoso…a primeira parte consegui fazer à beira da valada, era um trilho ‘consumível‘ e as ravinas eram pequenas. Após a 2ª aldeia tudo piorou e assumir o banho nas pernas até ao joelho, foi num tirinho quando comecei a ver a beira das levadas com rocha facilmente escorregável e a olhar para o fundo e ver que havia uns bons metros abaixo, ok, ai vou eu pela levada…cerca de 20km com os pezinhos na agua foi bem durinho! Adoro água, lama, rios, mas numa prova de 160 km tornava tudo mais desafiante! Entre estas aldeias e devido às rochas molhadas vivi um pequeno susto. Sou uma pessoa cuidadosa nos trilhos técnicos tendo sempre em mente que prefiro ir mais devagar e ‘sobreviver’ do que sofrer uma queda, penso sempre que tenho milhares de kms pela frente.  Numa descida um pouco mais escorregadia, em segundos tinha a cabeça no chão, escorreguei e nem sei como, não me amparei por causa dos bastões Levantei-me, à volta só escuridão e natureza, encostei-me a uma árvore e levei as mãos a testa… melhor começar pelo fim para não assustar ninguém, esta tudo bem! Da cabecita saia sangue e eu pensei, meu Deus, espero não ter feito asneira. 
1 Minuto para respirar, sentia-me muito bem, não tinha vómitos nem tonturas, foi só um raspãozinho para levar uma recordação da prova! Mais abaixo apanhei as minhas amigas levadas e lavei a testa, coloquei o lenço e segui. Nesta zona atendendo ao elevado perigo haviam mais bombeiros que atletas, que confirmavam se estava tudo ok e estavam de prevenção. Pensei logo que não poderiam olhar para a minha testa porque ficariam alarmados e tapei a cabeça e respondi uma mentirinha, 'está tudo bem atleta?' 'Sim claro!’ No pensamento, 'sim está tudo bem, só dei ali um tralho bati com a cabeça, deitou montes de sangue mas estou fixe, ainda não vomitei'…lol…e lá segui, sentia-me muito bem, mas tive por momentos o coração nas mãos, senti que houve ali um anjo que me protegeu! A aldeia que se seguiu teve direito a música, à chegada de cada atleta tinha um conjunto de pessoas a cantar e tocar para nós! Que máximo! Confesso que não resisti a dançar um pouquito, haverá algures fotos a comprovar que se calhar não vou ver. 
E por falar em anjos há pouco, 
Deus coloca-me sempre um anjo da guarda nestas provas com muitos dígitos, e assim foi, mais ou menos ao km 50 e pouco Deus colocou-me ali a minha companhia até ao final da prova, o Mauro! O Mauro estava a ‘vassourar’ a prova, mas o lugar em que eu seguia não me preocupava absolutamente nada. Uma prova extrema como esta em que estão a tentar cerca de 40 atletas, dos quais 3 mulheres, o importante é o título Finisher! E lá seguimos os dois a conversar. Confesso que adoro musica, adoro estar comigo em prova mas soube tão bem este momento em que tive alguém para partilhar as levadas, as subidas, as descidas, a sopa, as meias, os sapatos, .. etc etc… tudo menos a queda que só lhe contei no fim..e lá chegamos a Loriga novamente, vimos o nascer do Sol antes de chegar, das paisagens mais bonitas de ver! Adoro o nascer do Sol! À noite seguiu-se o dia e o que teríamos pela frente seria inigualável, a subida a Torre!
Ajustei bem o equipamento para o frio, olhei para o livro de bordo e vi que até a Torre seriam 12kms, ok, pertinho! O pior seriam mesmo os 1400D+ até lá chegar, e fiquei logo animada quando o Mauro disse, fazemos isto em 4h…what? 4h para 12km…que maravilha, venha lá a escalada! Dos percursos mais bonitos da prova! Tenho pena de não ter o hábito de fotografar, as fotos que tiro ficam-me na memória, é imponente e maravilhoso subir a Torre pela conhecida Garganta de Loriga! Naquele momento agradeci mais uma vez a Deus por ter construído aquele cenário e por permitir que eu tivesse tido a coragem de ali estar! Chegar a torre é brutal, a parte quase mais difícil já estava e já estávamos com 85km. 
Entro na torre e só digo, estou a morrer de calor. Sei que tiraram a temperatura a todos os atletas mas a mim não foi necessário, parecia eu que tinha saído da praia com tanto calor. Bendito equipamento que me permitiu chegar ali bem quentinha, valeu a nota preta que gastei! Comidinha, palavras simpáticas, aqueceram-nos a roupa, os pés as mãos, sentei num sofá, o Mauro também, com um cobertor, e pedi…’são umas pipocas e um filme por favor, hehehe’ (há foto a comprovar)…isto durou uns minutos só para animar, porque tínhamos de seguir viagem. Estava muito muito bem e aí arrancamos nós para o vale do Rossim, que maravilha! Um percurso fenomenal, com neve e paisagens de cortar respiração! Cruzamo-nos com atletas que conhecíamos e estavam nos 70km, e foi muito animador essa troca de palavras e fotos! 
Mesmo antes de chegar a Vale Rossim uma simpáticas palavras trocadas com o Armando Teixeira que estava em treino, muito animador também, e 103km já estavam! 
Quando cheguei a Vale Rossim as bolhas que me andavam a chamar há alguns kms quiseram mesmo apresentar-se, ‘olá eu sou a bolha da tua palma do pé e vou contigo até ao fim!’ Nãooo!! Mas assim foi… tenho muito cuidado com os pés porque são o mais importante nestas distâncias mas com uma boa dose de kms em água, pedras etc, não escapei… O compeed lá me aliviou mas as bolhas lá foram conversando comigo dificultando o resto do percurso. Mas querem vir comigo? Ok, mas vão ate ao fim porque não vão ser vocês que me farão desistir! Ai seguimos nós, com destino a Malhão e depois a Folgosinho onde estariam as nossas malas para trocar de roupa, e papar mais uma sopinha. Neste posto deixei um saco de cama para o caso de o sono ser mais forte que eu. Mas eu fui mais forte! Faltavam apenas cerca de 34km para terminar e só ali tive a certeza, doa o que doer, hoje vou ver aquela meta! E tinha de seguir, não houve tempo para dormitar, mudei roupa, cuidar pezinhos, comer e siga, a meta é nossa! Lá saímos os dois bem dispostos, conversadores e às risadas, a tentar que as bolhas fossem bugiar mas elas estavam preparadas para me acompanhar! Correndo e andando lá fomos, o percurso seria mais fácil tecnicamente mas foi o que mais me custou, os pés estavam muito massacrados , foi muito doloroso mas bonito ao mesmo tempo… vimos o nascer do sol novamente e sabíamos que estávamos a chegar! A 10 kms do fim o meu sorriso já era forçado, chorei e rezei para aguentar as dores! O caminho não passava, queria correr e não conseguia, muito muito difícil! Quase a chegar, pensei eu, ainda tivemos de dar uma enorme volta não sei por onde, estava cega de dores ..ate que aparece o Miguel Baptista, com a sua maquina e os seus 100km nas pernas, vi a luz, devo estar perto… éramos 3, eu o Mário Silva que entretanto apanhámos, e o Mauro, animados pelo Miguel. O Miguel diz, depois daquele carro é a meta, desato a correr e dou um salto como se não acreditasse, tenho o Hugo e a meta dos meus sonhos a minha frente!!!! 100 milhas, estas já ninguém me tira!!! Não da para descrever o que é chegar a uma meta destas, a prova mais dura que existe em Portugal, na minha opinião, muito técnica, e pela distancia, e eu acabei de a fazer! 
Ao contrario de Ronda não chorei, Ronda era um sonho, as 100 milhas um objectivo muito claro! Havia emoção, mas a mistura do sono, dor e cansaço ainda não me deixam interiorizar o que acabei de alcançar! Eu tinha um sonho de Ronda há um mês e fiz, tinha o objectivo de 100 milhas e já esta… até parece fácil! 
Agora confesso que olho para a frente e não vejo uma linha, vou ter de desenhar essa linha. Gosto de seguir um foco de luz como segui nas 100 milhas, preciso! Mas agora já completei a distância, vou ter de encontrar o próximo rumo. A pergunto que mais oiço desde ontem é, qual a próxima? Neste momento tenho dificuldade em responder, mas vai haver, tudo o que tenho planeado para a frente é pequenino demais à luz desta prova. Temos de construir os sonhos como um castelo, desenhá-los e lutar por eles. Colocar um tijolo de cada vez, muitas vezes os tijolos caiem e temos de voltar a pô-los, também me aconteceu quando desisti, quando coloquei o tijolo pela 2ª vez sai mais forte, é só essa certeza que trago comigo! 

Prometido é devido e o meu próximo passo é tentar ir fazer os 65km dos Caminhos do Tejo já no próximo Sábado, agradecer a Nossa Senhora toda a protecção e força que me tem dado neste longo caminho! Aqui a distância que fizer não é importante, o importante será a meta, a Ela vou agradecer e pedir inspiração para os próximos projectos! Quem sabe saia de lá com o novo desafio a seguir. 

Obrigada ao Hugo que me acompanhou sempre neste longo percurso, antes, durante e depois, aos meus amigos que lá estiveram e aos que acompanharam de longe e em sofrimento ao longo da prova. Obrigada ao Aires Barata e ao Pedro Sanguino pelas recomendações de equipamento, valeram ouro! Obrigada ao Miguel Batista pelas muitas fotos, são elas que vão permitir eternizar os momentos que por lá passei, e obrigada por vires buscar nos últimos momentos da prova e captar o sofrimento final! Um obrigada muito muito especial à minha companhia nesta aventura e que me permitiu terminá-la, Mauro, obrigada do fundo do coração! 
Parabéns muito especiais à Horizontes pela excelente organização desta prova de tão grande distância, as marcações irrepreensíveis, os abastecimentos, o percurso duro duro em que dissemos muitas asneiras, mas que depois deu mais gozo à luta, o pequeno guia que construíram com a descrição pormenorizada de todo o percurso, absolutamente fenomenal e confortante saber o que nos espera (e ser à prova de água! Lool), o terem conseguido mover uma zona inteira para vos ajudar e aliarem-se a todos os atletas, tudo com um detalhe e pormenor irrepreensível, falhou alguma coisa? Deve ter falhado, mas possivelmente um pormenor, seria impossível não falhar, foi simplesmente brutal e estão de parabéns por esta magnífica prova que é e será sempre as melhores 100 milhas de sempre! Podem vir muitas mas a vossa, é a prova de 100 milhas em Portugal! Terá sempre um significado diferente porque foi onde entreguei a minha estreia, mas também por toda a dedicação e carinho que colocam nela, merecem os profundos parabéns e que seja sempre um sucesso! 
Parece que fechei mais um livro, vários capítulos, aprendi muito e retiro apenas que os ingredientes mais importantes nesta magia que é a corrida são, o sonho, a luta, a dedicação, o acreditar, os amigos, o coração e acima de tudo a Fé que move montanhas e dá-nos forças quando elas já não existem, ela leva-nos onde queremos e torna-nos pessoas mais felizes e melhores! 
Obrigada por conseguirem ler-me até aqui, até a uma próxima aventura.