Foi na Granja do Marquês, junto à Base Aérea nº1, em Sintra, que se realizou há quase 25 anos, em 8 de Dezembro de 1985, a terceira maratona organizada pela Revista Spiridon.E com algumas particularidades, que os maratonistas de hoje já não estão habituados: um percurso em circuito com 6 voltas, de 7 km cada, praticamente plano, em que os únicos assistentes eram os apoiantes dos atletas, incluindo aqueles que foram encarregados de entregarem os abastecimentos individualizados, e que cumpriram até ao fim, e em péssimas condições de tempo, a sua tarefa.
Parece fácil, mas acreditem que não é! A não ser, para alguns, devido ao aspecto psicológico da contagem em decrescente das voltas que faltavam. Mas a solidão do corredor de fundo assume aqui um enorme papel, numa prova sem público ao longo do percurso, ao contrário do que acontece na maior parte das grandes maratonas internacionais.
No entanto a escolha do local teve a ver com a preocupação, aliás de sempre, do director da prova, Prof. Mário Machado, de conseguir que os atletas, do primeiro ao último, fizessem a corrida sem serem incomodados pelo trânsito automóvel, o que, passado um quarto de século, continua a não ser, infelizmente, garantido para os últimos do pelotão na maioria das maratonas deste país! Desculpem o desabafo, mas isto está tudo ligado, e tal facto tem muito a ver com a mentalidade dominante dos que em geral chegam ao poder (porque não colocamos lá outros), neste país.
Mas o que tornou esta prova particularmente difícil, para os mais lentos em especial, foi um tempo invernoso, com chuva e vento, embora com algumas abertas, ao longo das aproximadamente quatro horas, que os últimos atletas levaram. De vez em quando lá vinha uma descarga de água mais ou menos fria, que descontrolava os maratonistas.
Para mim, foi no entanto, o início da última volta que me foi fatal. Os primeiros já tinham obviamente terminado. Faltavam-me cerca de 7 km para terminar e sentia-me muito bem, capaz de atingir, e se calhar melhorar, o tempo que o orientador do Centro de Treino (João Pires) me havia indicado como objectivo, baixar das 3 horas e 20 minutos. Eis senão quando, quase já ultrapassado o famoso muro da maratona, que se situa entre os 30 e os 35 km, cai uma saraivada enorme, acompanhada de grosso granizo, que, atingindo-nos no corpo, e em especial na cabeça, nos magoava a sério. Confesso que talvez tenha sido o momento mais delicado deste género, em trinta e tal anos de corridas. O efeito foi trágico porque me levou a acelerar, ainda muito longe do objectivo e o resultado não podia ser pior: a articulação de um joelho, salvo erro do direito, foi atingida. A partir daí foram 7 quilómetros a penar, com dores, arrastando a perna, mas não querendo desistir em caso algum, para concluir em 3H30’30” (174º).
Apesar do mau tempo, dos 307 inscritos, 298 compareceram à partida e 191 conseguiram mesmo concluir a prova. O favorito era um conhecido atleta sul-africano, Samuel Ndala, que afinal foi segundo, tendo a vitória pertencido a um maratonista verdadeiramente amador, bancário de profissão, Américo Ferreira, que fez 2H23’39”.
Mas “numa prova de 42 km só existem vencedores” (prof. Mário Machado, na Revista Spiridon nº44, no artigo sobre a prova), e relembro muitos dos companheiros e amigos da estrada que participaram em mais esta aventura, a maioria dos quais ainda muito activa – Esmeraldo Pereira, António Belo (um dos atletas portugueses com mais maratonas concluídas), João Palma, António Casqueiro, Daniel, José Martelo, Luís Sequeira, Jorge Branco, Manuel Martins (ilustre médico, organizador dos Jogos Médicos, e que aqui fazia, já, a sua 12ª maratona), António Realinho, João Marcelino, Arnaldo Chora, Ana Massas, José Martins, Arons de Carvalho, Fernando Cardia, António Malvar, Virgílio Palminha, etc, etc, exemplares pelo seu desportivismo.
EVB
Outubro de 2009Nota: A foto que ilustra este texto foi obtida na internet
não se reportando a nenhuma prova Portuguesa. JBT
não se reportando a nenhuma prova Portuguesa. JBT



